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A imigração alemã - 13/03/2007

Profa. Sandra Brandt

São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Rio Grande do Sul, foi o ponto de partida de uma luta pela sobrevivência que mudou a história do Brasil e que começou em 1824 com a fundação da primeira colônia de imigrantes alemães no país. Na época, o Brasil havia acabado de se tornar independente de Portugal. Então, por influência de José Bonifácio, o então imperador Dom Pedro I decidiu inaugurar, com esses imigrantes, um programa de imigração para o Sul, movido por questões de segurança nacional, diante das sucessivas disputas territoriais naquela então erma região fronteiriça.

Naquela época, a Alemanha estava dividida em uma porção de reinados, principados e ducados, todos independentes, mas unidos precariamente pelo idioma. Ela viria a ser unificada por Bismarck apenas em 1871.

Nos primeiros 50 anos de imigração, vieram para o Rio Grande do Sul entre 20 e 28 mil alemães e quase todos se dedicaram à colonização agrícola.

Essa colonização alterou a ocupação de espaços, levando gente para áreas até então desprezadas. Introduziu também outras grandes modificações. Até aquele momento, a classe média brasileira era insignificante e se concentrava nas cidades. Os colonos alemães acabaram formando uma classe de pequenos proprietários e artesãos livres em uma sociedade dividida entre senhores e escravos.

Desde a fundação de São Leopoldo, aproximadamente 300 mil alemães vieram para o Brasil. Depois de colonizar o Rio Grande do Sul, ainda no século 19, eles subiram para Santa Catarina, que atualmente tem a maior população de descendência alemã — mais de 20% do total —, e seguiram rumo ao Espírito Santo, marcando presença no Paraná e, em menor escala, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

 

História de promessas não cumpridas

Atraídos por falsas promessas do Império brasileiro, os alemães criaram, à sua maneira, um ambiente propício para se desenvolverem no país.

A história da imigração alemã para o Brasil começou em 1822, quando o major Jorge Antonio Schaffer foi enviado por Dom Pedro I para a corte de Viena e demais cortes alemãs com o objetivo de angariar colonos. Outro motivo era conseguir soldados para o Corpo de Estrangeiros, situado no Rio de Janeiro. “Ao proclamar a independência do Brasil, Dom Pedro deparou com o seguinte problema: a falta de defesa da capital, o Rio de Janeiro, já que Portugal tinha levado embora todos os soldados” (conta o historiador Telmo Lauro Muller). Müller diz que outra preocupação que havia na época era evitar que mais escravos fossem trazidos ao país, pois o número destes já se igualava ao de não-escravos, podendo representar perigo para o status quo.

Dom Pedro preocupava-se em povoar o Rio Grande do Sul com pessoas que soubessem trabalhar na terra.

Em seus primeiros anos de trabalho, Schaffer convocou principalmente soldados e alguns colonos; mas, à medida que o Império brasileiro foi estabilizando-se, passou, efetivamente, a se preocupar em trazer mais colonos. Para isso, anunciava aos interessados que, aqui, eles receberiam 50 hectares de terra, juntamente com vacas, bois e cavalos; auxílio de um franco por pessoa no primeiro ano e de cinqüenta cêntimos no segundo; isenção de impostos e serviços nos primeiros dez anos; liberação do serviço militar; nacionalização imediata; e liberdade de culto.

“As viagens para o Brasil eram verdadeiras tragédias. Quando eram muito boas, duravam dois meses. Mas muita gente viajou três, quatro meses ou até mais”, conta Müller. O historiador esclarece que os primeiros imigrantes desembarcaram no Rio de Janeiro e foram recebidos pelo casal imperial, já que Leopoldina era uma princesa germânica, filha de Francisco II, último imperador do Sacro-império Romano Germânico, outro motivo para Dom Pedro ir buscar imigrantes naquela região.

 

Chegando a São Leopoldo

A primeira leva de colonos alemães — composta de 39 pessoas de nove famílias — chegou ao Rio Grande do Sul em 1824, desembarcando em 25 de julho na colônia de São Leopoldo, antiga Real Feitoria de Linho Cânhamo. Portugal, que tinha sua navegação baseada em navios de vela, precisava de muitas cordas para eles. Então, em muitos lugares, havia feitorias que produziam a cordoalha necessária, tirada do linho cânhamo. A feitoria que abrigou os alemães ficava exatamente onde é hoje a cidade de São Leopoldo. “No lugar não existia nada. O governador da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, trouxe os primeiros colonos e os colocou na única construção que existia no local. Quando ela foi fechada, dois meses antes, abrigava 321 escravos. Os alemães foram albergados lá até que ganhassem suas terras e começassem a trabalhar”, esclarece o historiador.

A partir de São Leopoldo, as colônias alemãs se espalharam primeiro pelas áreas mais próximas, atingindo depois zonas mais isoladas. Geralmente, as colônias — principalmente as primeiras — situavam-se à beira de rios. Isso tinha uma grande importância estratégica: em uma época em que os caminhos eram muito precários, os rios serviam como “estradas fluviais” para o recebimento de equipamentos e o escoamento da produção.

 

Mudança de mentalidade

Mesmo com todas as dificuldades que os povos imigrantes encontraram nos novos países — como, por exemplo, diferenças de idioma, cultura e clima —, os alemães promoveram uma verdadeira mudança ao instalarem-se no Brasil.

A primeira delas, segundo o historiador Telmo Lauro Müller, deu-se no aspecto econômico, pois, além de colonos, eles eram artesãos. “Os sobrenomes eram baseados nas atividades que as famílias tinham na Alemanha: Schmidt, ferreiro; Müller, construtor de moinhos d’água; Schreiner, construtor de móveis; Schneider, alfaiate; Shumacher, sapateiro; Wagner, que faz carretas”, aponta. Todas essas famílias tomaram conta do Vale dos Sinos, criando um setor industrial que é hoje o segundo mais importante no Rio Grande do Sul.

Na Alemanha, já havia escolas. Chegando aqui, diz Müller, muitas famílias abriram suas próprias instituições de ensino, já que no interior do Brasil elas eram inexistentes. Assim, contribuíram enormemente para a cultura. “Não é à toa que o Rio Grande do Sul tem um dos menores índices de analfabetismo do país”, afirma.

Em seu país de origem, essas famílias também já contavam com várias sociedades de canto, tiro e ginástica, que também acabaram sendo trazidas para o Brasil. O historiador relata que a primeira sociedade alemã no Brasil data de 1858 e está em São Leopoldo — é a Sociedade de Canto Orfeu, que funcionou ininterruptamente, mesmo durante as grandes guerras. Em Porto Alegre, surgiu a Sociedade de Ginástica Porto Alegre — Sogipa —, a primeira sociedade de ginástica do estado.

“Todas elas tinham nomes alemães. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, houve um período conhecido como nacionalização. Estrangeiros, principalmente alemães, não eram muito bem vistos, chegando a ser perseguidos. Sua língua e o ensino dela, seus cultos e jornais foram todos proibidos, embora toda essa gente tenha contribuído tanto para o país”, lamenta.

 

As festas de outubro

Um aspecto marcante que vem à mente quando se pensa nos descendentes de alemães no Brasil são as festas, que ocorrem sempre no mês de outubro. O maior exemplo é a Oktoberfest, que acontece em Blumenau, Santa Catarina. Trata-se de uma autêntica festa alemã fora da Europa (comemorada, aliás, em uma cidade que parece européia). Na verdade, segundo os organizadores do evento, é a segunda maior festa alemã do mundo, perdendo apenas para a de Munique, Alemanha

E a origem das festas de outubro está, é claro, nesse país. Foi o rei da região da Baviera que determinou que fosse realizada uma grande comemoração para o casamento de sua filha, em 1810. Ele não imaginava que estaria criando a maior festa do chope — ou fassbier (cerveja de barril) — de todo o mundo.

 

Revolta dos Muckers - Um episódio de fanatismo religioso

O que acontece quando fanatismo religioso e intolerância governamental se defrontam? O resultado foi mostrado, não há muito tempo, em um seriado de televisão sobre a Guerra de Canudos: ignorantes e com menos poder, os fanáticos normalmente são dizimados. Essa costuma ser a regra, repetida inúmeras vezes ao longo da história humana. E isso foi, também, o que aconteceu no episódio dos Muckers, um capítulo triste da história gaúcha.

Os muckers eram uma pequena comunidade de fanáticos religiosos que se formou no então município de São Leopoldo (atualmente cidade de Sapiranga) localidade situada ao pé do morro Ferrabrás. Como todo o município de São Leopoldo, aquela era uma área ocupada por imigrantes alemães católicos e protestantes, que haviam chegado ao Rio Grande do Sul a partir de 1824.

Esse grupo de fanáticos era liderado por Jacobina Mentz Maurer — que se julgava uma reencarnação de Cristo e que prometia construir a "cidade de Deus" para seus discípulos. Jacobina, desde criança, passava por "transes" e, quando nesse estado, diagnosticava doenças.

Em 1866, se casou com João Maurer, e sua fama começou a crescer. Um grupo de adeptos cada vez maior se reunia na casa do casal nos finais de semana. O movimento foi crescendo, Jacobina foi proclamada "Cristo" e chegou a escolher seus apóstolos.

Os seguidores de Jacobina seguiam regras rígidas. Não bebiam, não fumavam, e não iam a festas. Isso provocava uma certa resistência por parte dos demais colonos alemães - resistência que se tornou maior quando os seus seguidores passaram a tirar as crianças das escolas comunitárias.

 

Muckers x Spotters

Essa antipatia entre os colonos "normais" e os seguidores de Jacobina fica bem expressa nos apelidos que respectivamente se deram: Mucker - falso religioso, santarrão - era a maneira como eram chamados os "fiéis" da novo "Cristo". E Spotter - debochadores - era como os seguidores de Jacobina chamavam seus adversários.

O clima de hostilidade entre os dois grupos foi se tornando cada vez mais intenso, até que o chefe da polícia local resolveu prender Jacobina e seu marido. O presidente da então Província do Rio Grande do Sul, entretanto, achou que houve precipitação - e determinou que fossem soltos. Com isso, ganharam força os fanáticos, que se convenceram, de vez, que Jacobina era mesmo o "Cristo". E os demais colonos acirraram seus ânimos contra os Muckers, atribuindo a eles qualquer coisa que acontecesse de ruim ou errado.

Como violência só gera violência, o clima ficava cada vez pior. Os muckers passaram a atacar seus inimigos - a casa de um ex-mucker, Martinho Kassel, foi incendiada, causando a morte de sua mulher e de seus filhos. Logo depois, incendiaram a casa de um comerciante, Carlos Brenner, matando as suas crianças. E também atacaram mais duas lojas e duas casas, chegando a executar um tio do marido de Jacobina, que não queria fazer parte da seita.

 

Ataque militar

Após esses e outros episódios violentos, houve nova intervenção policial em 28 de junho de 1874, quando 100 soldados cercaram o reduto dos muckers. Mas a luta foi um vexame: com soldados mal treinados e sem nenhuma estratégia, o comandante do grupo, coronel Genuíno Sampaio, viu seu grupo sofrer 39 baixas, enquanto os muckers tiveram apenas 6 baixas. O confronto, mais uma vez, serviu apenas para fortalecer os muckers, pois confirmava uma das "profecias" de Jacobina, que dizia que quem acreditasse nela não morreria.

Menos de um mês depois, em 18 de julho, houve um segundo ataque, comandado pelo mesmo coronel. Dessa vez, a casa foi incendiada, mas os muckers que lá se encontravam não se entregaram - preferiram morrer, pois acreditavam nas palavras de Jacobina, que havia lhes dito que iriam ressuscitar. Foram 16 os muckers mortos - mas Jacobina conseguiu escapar, acompanhada de alguns de seus seguidores. E, durante a noite, um dos muckers, provavelmente escondido no morro Ferrabrás, atingiu o coronel, que morreu no dia seguinte devido a uma hemorragia.

Novo ataque aconteceu no dia 21 de junho, sem resultados - depois de duas horas de confronto, os soldados se retiraram. A vitória só foi possível no dia 2 de agosto, quando, conduzidos por Carlos Luppa, um mucker que havia decidido se entregar e trair seus companheiros, os soldados puderam chegar até o reduto do morro Ferrabrás. Dessa vez, Jacobina e os 16 seguidores que a acompanhavam foram mortos.

Os muckers sobreviventes tiveram que enfrentar duros momentos. Durante oito anos, foram conduzidos de prisão em prisão, sem serem julgados. Finalmente, foram perdoados e soltos, mas tiveram que agüentar a perseguição dos colonos alemães até o final de suas vidas.


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